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Poema do Rococo

por O Gil, em 20.07.18

uma luminescência crepuscular

invade intrépida os aposentos do meu ser

transportando inspirações

tangentes às fantasias que pretendo

elevar ao patamar

da idílica arte que outro qualquer ser

é incapaz sequer de imaginar

 

turva a visão como era no momento precedente

apenas a mais vácua das falaciosas belezas

poderia brotar do jardim da minha mente

com as suas cores pálidas

indistintas em céus nublados

 

vinda a luz e os seus espectros coloridos

ilumino-me num espelho interior

onde os detalhes desta pele e ossos

arcaicos e desprovidos de sentimento

conquistam o território da ignorância

populado pelos outros homens comuns

 

vislumbro a primordial e singular

ordem artística inalcançável

senão pela poesia residente

nas habitações da minha alma

e preencho-me de propósito dos pés à cabeça

vertendo em mim e de dentro de mim

uma obra transcendente

a tudo o que outrora fora criado

 

o relógio é certeiro e marca

o momento em que o mundo

transmuta a sua forma

 

pela mão da catastrófica dilaceração

filosófica

e conceptual

de todo o tipo de lógica

os meus versos rasgam as folhas

e as mentes

quando por entre floreados

e divagações

acrescentam ao mundo

um novo sistema de crenças

que se diria criminosamente ignorante

se tal atributo não fosse já

o grande imperador da paisagem moderna

 

estampados e corrigidos

até ao exorcismo de qualquer ínfima

espécie de significado

os meus poemas

correm agora continentes e planetas

porque é galáctica a escala

do mercado da desinteligência

 

resta-me apenas a memória

daquele velho momento enrugado pelo tempo

em que os olhos do interior se iluminaram

de sabedoria que nunca antes me trespassara

e me sussurraram em tom cuidadoso

que para me erguer perante a multidão

de entes e gentes sedentos

por aprender o que é viver e saber

teria apenas de vender

um produto

de preferência deserto de importância

mascarado por linhas e camadas de tecido

de prosa bonita como as flores campestres

reminiscentes de uma visão de uma pradaria

que todos os homens e mulheres

têm em mente quando tal palavra é proferida

 

o problema

é que a imagem da pradaria

não corresponde a algo que

se encontre no mundo real

e ao contrário deste poema

que nunca sairá do armário

serve apenas para ocupar o lugar

daquilo que há em falta

na não-arte que digo criar

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publicado às 03:23


4 comentários

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De P. P. a 21.07.2018 às 15:17

Muito bem, Gil.
Continua.
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De O Gil a 23.07.2018 às 02:13

obrigado!
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De CB a 30.07.2018 às 11:59

Espectacular
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 30.07.2018 às 12:22

De toda a arte, a não-arte será sempre a arte mais artisticamente bela.

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