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O Melhor Cinema de 2018

por O Gil, em 10.02.19

Um dos anos mais medíocres para os Óscares é também (infelizmente) um ano aquém das expectativas para o cinema no geral. Esperavam-se regressos de realizadores celebrados e atores reconhecidos, e antecipavam-se obras curiosas com tremendo potencial. Um atrás do outro, os filmes de 2018 deixaram uma marca efémera e inconsequente no mundo cinematográfico, mesmo quando tentavam lidar com temas atuais e importantes.

 

No entanto, o cinema é mais que os Óscares. É mais plural que os realizadores mais conhecidos e, apesar de tudo, este ano deixou-nos com, pelo menos, 10 filmes de qualidade surpreendente e mensagens permanentes, muitos deles concretizados por autores desconhecidos. 

 

10. Burning

 

Um romance sul-coreano onde a meio da viagem se percebe que na realidade se trata de um thriller, repleto de metáforas subtis que não falham em representar o significado mais profundo da história. Onde muitos outros filmes independentes falham, Burning sucede. É um filme que não se perde nos seus detalhes, que não inventa um significado maior que não existe, mas que também não sacrifica a sua mensagem. 

9. Black Mirror: Bandersnatch

 

Black Mirror: Bandersnatch, do mesmo criador da série, poderá não ficar para a história como um dos melhores filmes de sempre, mas ficará sem dúvida para a história. Além de inovador e original, Bandersnatch utiliza a nova linguagem cinemática que criou como se já existisse há décadas, desconstruindo e criticando o próprio meio e enredo em que se insere.

 

8. Wildlife

 

Nem sempre o talento de um ator se traduz em talento enquanto realizador. No caso de Paul Dano, é um exemplo de que ser excelente nas duas profissões não é algo mutuamente exclusivo. Wildlife é um drama que destila o género ao essencial; ao princípio, desenrolar e resolução de um conflito entre personagens. O filme utiliza a simbologia de incêndios florestais para representar uma família em chamas, enquanto um filho de pais em processo de separação é colocado constantemente no centro do fogo da sua família a arder.

 

7. Green Book

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É um triste fenómeno ver, numa época em que o tópico de racismo está presente nas mentes de todos, tantos filmes que não compreendem a realidade do problema. Reduzem-se a dicotomias de bem e mal, extremando os papeis de inteiros grupos sociais e indivíduos, pintando-os como inquestionáveis vilões ou heróis absolutos. A realidade, porém, nada tem a ver com isto. Green Book compreende o problema, e representa-o da forma mais honesta possível: uma incompreensão obstinada dentro de todos os seres humanos face aos seus semelhantes.

 

6. Cold War

 

Neste filme de Pawel Pawlikowski a Guerra Fria é de facto gélida; as personagens são distantes, a vida é difícil, a arte é mecânica, e o amor é algo estranho. Mas, no final, perante qualquer ditadura, guerra ou conflito a humanidade inerente a todos nós prevalece. Cold War é um filme polaco com uma mensagem universal, e uma obra histórica humanamente intemporal.

 

5. Death of Stalin

 

Há quem considere este filme uma comédia absurdista, uma paródia de um período histórico duradouro e uma ideologia dolorosa. Na verdade, este filme não podia ser mais realista. É só que a realidade do comunismo, da união soviética e da guerra fria é inevitavelmente ridícula. Neste filme, um conjunto de personagens históricas, um grupo de seres humanos comuns e mortais, falham completamente na tarefa impossível de dirigir através de planeamento central toda uma nação. O resultado é hilariante, como terá sido certamente o funcionamento interno de qualquer "potência" comunista. As consequências para o mundo são, no entanto, tragicamente reais.

 

4. First Man

 

Mais do que mostrar Neil Armstrong enquanto a grande personalidade histórica que foi para a ciência e humanidade, First Man eleva a humanidade ao seu verdadeiro potencial. Quando o final climático do filme chega, deixamos de ver aquela tripulação  de indivíduos que navegou a vastidão do vazio para aterrar num deserto no meio do cosmos, deixamos de ver a sua simplicidade e mortalidade, vemos toda a espécie humana a transcender as barreiras do imaginável ao som de uma grande banda sonora.

 

3. Isle of Dogs

 

Wes Anderson é criativo, original e metódico na forma como conta histórias. Este elogio é válido para qualquer um dos seus filmes, mas em especial para Isle of Dogs, um dos seus melhores filmes. Visualmente estranho e cativante, este filme mistura emoções que não se imaginavam misturadas, e aventura-nos por uma jornada continuamente inesperada e surpreendente de altos e baixos nas vidas de cães exilados de uma sociedade japonesa com todos os seus problemas sociais e culturais metidos ao barulho.

 

2. Annihilation

 

Num ano marcado por escassez de ficção científica, pelo menos de qualidade, Annihilation compensa através de substância e permanência, mas o seu mérito não reside apenas neste género. A genialidade de Annihilation é combinar ficção científica com terror, não apenas como uma desculpa para criar medos abomináveis e cenas macabras, mas acima de tudo como um catalisador para explorar temas mais profundos. Se é difícil encontrar um filme de terror decente, e um filme que faça pensar, e ainda mais raro e meritório um filme que combina os dois de forma eximia, fornecendo ainda uma das cenas mais assustadoras e perturbadoras do cinema modero.

 

1. The Favourite

 

The Favourite dança entre precisão histórica e linguagem moderna, comédia inesperada e drama meticuloso, critica social articulada e estereótipos exagerados, cinematografia magnifica e imagens obtusas. Seria de esperar que, com tanto contraste, o filme fosse uma confusão falhada, que foi o caso de algumas das anteriores longas metragens do realizador grego Yorgos Lanthimos, mas finalmente o equilíbrio foi alcançado. O estilo peculiar deste inovador cineasta atingiu a sua maturidade, sendo o resultado absolutamente extraordinário.

 

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publicado às 20:47


2 comentários

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De Francisco Quintas a 10.02.2019 às 22:11

Confesso que os únicos que vi foram o "First Man" e o "The Favourite". O primeiro, mesmo proveniente de um realizador espetacular, podia ser mais memorável, ainda que seja uma obra extremamente competente em diversos aspetos. Já o segundo tem todo o mérito de estar no topo de qualquer lista. Acho que ainda gosto do "The Killing of a Sacred Deer" um cabelo a mais. Mas o "The Favourite" é sem dúvida uma daquelas raras e autênticas aulas de cinema. Pena não ter visto mais filmes em 2018, foi um ano um bocado pobre para mim.
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De O Gil a 10.02.2019 às 23:45

Não perdeste muito honestamente, mas se rebuscares algum desta lista não perdes nada. O The Killing of a Sacred Deer é um ovo podre para mim, infelizmente.

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