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A Meia Noite da Existência

por O Gil, em 18.07.19

A cada poema escrito,

A cada fôlego dado,

A cada dia passado,

Fico cada vez mais perto

Da meia noite da existência.

 

A hora que chega a todos,

A hora em que a escuridão

Por fim engole toda a claridade,

Envolvendo todas as memórias,

Tristezas e alegrias

Num eterno manto de nada.

 

É corajoso

Enfrentar tal data sem medo.

Também é

Admitir que o medo é ensurdecedor.

 

A meia noite chega para todos,

Os medrosos e os corajosos,

Os santos e os pecadores,

Sem julgamentos,

Sem piedade,

Sem resoluções.

 

O meu maior medo

É o segundo antes

Do bater do relógio.

A eternidade infinitesimal

Antes de mergulhar

No negro mais profundo,

Enquanto ainda há luz

Para me ver a afundar.

A cada milésimo

A iluminação enfraquece

Um pouco mais,

A distância dos vultos

Aumenta um pouco mais,

O vazio aproxima-se

Um pouco mais.

 

Tenho medo de desaparecer,

Do apagar da minha consciência.

Tenho medo pois não compreendo.

Entender a biologia da morte

Em nada colmata a sua realidade.

 

A meia noite da existência

Aproxima-se e não tenho palavras

Para me despedir.

Se a poesia e se a arte

Servem para algo é para transmitir

Uma mensagem verdadeira.

Algo puro e real.

Há muito que se pode dizer sobre a vida,

Muito que se pode dizer sobre o significado,

Sobre a tristeza e a felicidade.

 

 

Há muito que posso dizer,

E há muito que quero dizer,

Mas a meia noite da minha existência

Está a chegar e mais cedo ou mais tarde

Vou ter de a enfrentar.

 

Deixarei poemas incompletos,

Ideias vagas e incompreensíveis,

Memórias imperfeitas

E verdades insuficientes.

Mas,

Deixarei algo,

Espero eu,

Pois se estou cá

É porque ainda não é meia noite.

O tempo não para,

E há muito para dizer.

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publicado às 19:18


A Longa Metragem

por O Gil, em 18.07.19

A vida é o filme mais longo

E mesmo assim é demasiado curto.

Tão curto como é deve ser aproveitado

Mas à mesma sinto-me entediado

Pelo pouco ou nada que acontece

E quando algo acontece

Nem uma vez fico maravilhado.

 

Letárgico como sou,

Por natureza ou teimosia,

Enraiveço, transpiro e suspiro

À espera de um novo enredo,

De um novo elenco,

De um novo guião

Que dê à vida outra direção.

 

Se nem da arte eu espero

Esta colheita de felicidade,

Algo feito com perícia,

Consciência e em prol da qualidade,

Porque espero eu da longa metragem

A que se chama vida

Algo mais que uma tarde perdida?

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publicado às 19:17


O Verdadeiro

por O Gil, em 18.07.19

Quando se levantam as grandes questões

Sobre a natureza da realidade

Há quem dê números

E há quem dê enigmas.

Nunca ninguém dá respostas.

 

Já ouvi de tudo um pouco

Sobre as filosofias da vida

E a vida que cria as filosofias.

O que nunca oiço alguém dizer

É algo que seja verdadeiro.

 

Nunca equacionei o verdadeiro

Ser algo de verdade.

Nunca ponderei estar errado

Sobre a mentira ser tudo o que existe.

Nunca compreendi que o significado

Não existia, mas podia ser fabricado.

 

Uma questão sobra;

Como pode ser algo fabricado

Também algo verdadeiro?

 

Julgo que há em mim

E, portanto, em todos os outros

Uma ideia vaga e elusiva

De algo que une todos os pontos

Da vida para criar uma imagem singular.

A imagem singular

É a única coisa que nos faz sentido,

E os pontos que a constituem

Só existem dentro de nós,

Em ordens e formas diferentes

Para todas as diferentes variações de nós.

 

Para unir todos os pontos

É necessário saber desenhar,

Saber traçar com tinta permanente

Um caminho com todos eles

Para que não seja apenas

Um efémero rabisco a lápis.

 

À imagem que une todos os elementos da nossa vida

Chama-se O Verdadeiro.

Umas serão formas eróticas,

Outras imagens esbatidas,

Outras impressionistas e muitas apenas pura loucura.

Todas são impercetíveis,

A não ser para a pessoa que representam.

E quando essa não reconhece

A imagem do que lhe é verdadeiro

O problema é apenas um:

Não tem coragem para aceitar

Que aquela imagem feia e desfigurada

É o seu reflexo ao espelho.

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publicado às 19:16


Pó de Sonhos

por O Gil, em 01.07.19

Houvesse em mim algo mais que átomos,

Houvesse em mim uma alma,

Ela ter-me-ia escapado pelas fendas desta prisão

Em busca do que não posso ter.

Se a alma sou eu

Saberia o que mais quero,

E que não o tenho aqui.

Aqui nesta prisão da minha liberdade

Onde erro por corredores escuros

A pagar o preço de conviver com a realidade.

 

Há mais do que um tipo de prisão

Sem ser o do género que salva os pecadores

Dos pecados da sua natureza.

Há prisões em tudo o que priva o ser

De viver a vida que tem de viver,

De deter nas mãos e na mente as coisas

Que sonha para sempre preservar,

De ver as pessoas que não quer deixar de ver.

 

Pode ser uma ilha deserta.

Pode ser um asilo psiquiátrico.

Pode ser uma viagem pela noite,

Sem objetivo e sem destino,

Quando se sabe que a casa se irá regressar

Sem algo de novo, algo melhor para mostrar.

Pode ser uma e mil coisas,

Mas é sempre uma prisão.

 

 

A prisão tem uma janela

Que contempla toda a história e existência,

Os passados, os presentes e os futuros

Do seu estranho prisioneiro.

Tudo o que a janela oferece

É o vislumbrar da sua paisagem,

Uma ode às coisas que não se pode ter.

A tortura da prisão é a visão

De tudo a desvanecer,

Das memórias a corroer,

As pessoas a esquecer,

O mundo a crescer

E os sonhos a morrer.

 

Os sonhos,

Esses morrem,

Decompõem-se,

Tornam-se em pó.

Pó de sonhos

A voar ao vento,

A passar com a brisa

Pela janela da prisão.

Apenas pó de sonhos

Até nenhum sonho sobrar.

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publicado às 18:11


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