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O Nosso 25 de Abril está a Morrer

por O Gil, em 25.04.17

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No dia 25 de Abril de 1974 uma faísca revolucionária incendiou a chama da liberdade em Portugal e queimou as estruturas do regime autoritário que o governava desde 1926. A 25 de Abril de 2017, essa chama está a perder o fôlego, dando lugar a ventos gélidos provenientes do esquecimento coletivo de um passado negro.

 

Há uma justificação para este fenómeno histórico diretamente identificável. As gerações de pessoas que viveram os seus anos de consciência sob a pesada alçada da ditadura vão minguando ao longo do tempo, dando lugar a novos indivíduos e novos pensamentos que reestruturam gradualmente a cultura do País. Estas novas gerações, não tendo presentes as dificuldades ultrapassadas ou apenas conhecendo-as parcialmente, não se revêm da mesma forma na reivindicação constante do significado do 25 de Abril, quebrando as defesas estabelecidas contra o autoritarismo. No entanto, a fragilização da memória coletiva não se deve somente a este périplo geracional, pois é observável a forma como é fortalecido pelas tragédias socioeconómicas e políticas contemporâneas.

 

Não tanto como noutros locais do mundo, em Portugal sentem-se as consequências a nível de inquietação social de uma severa crise económica e das políticas colocadas em prática para a combater. Sente-se a subtil e crescente frustração de uma sociedade capitalista e uma realidade política cada vez mais abstrata e distante do cidadão comum, e antevê-se um futuro ainda mais frio e desumanizado com o advento de uma automação quase absoluta. A cereja no topo do bolo das maleitas existenciais do humano comum: um aquecimento global rompante, que não está a ser devidamente combatido, e que abre caminho para um potencial resultado apocalíptico.

 

Embora a previsibilidade de todos estes acontecimentos futuros não seja certa, a sua sombra paira na mente das pessoas e conjuga-se à transição das gerações para formar uma tempestade que leva a alterações nos movimentos de decisão política. De facto, um individuo pode nem ter plena consciência desta tempestade, ou simplesmente não pensar com frequência nos problemas que a provocam, para que sejam capazes de o atormentar. Mas a convivência no dia a dia com estas realidades impacta profundamente qualquer um, mesmo que inadvertidamente.

 

Para compreender o efetivo dano colateral destas tensões sociais é imperativo levantar uma questão; qual o verdadeiro perigo do burburinho incessante das querelas ideológicas e da erosão temporal que desvanece a memória da ditadura? Em último caso, uma circularidade histórica que pode fazer nascer forças políticas neofascistas como tem acontecido noutros países europeus. Este cenário pode parecer genuinamente impossível em Portugal, como um alarme catastrofista que pouco de verdade anuncia. Porém, basta desviar o olhar para países vizinhos para testemunhar a edificação de partidos deste género, que ocultam por detrás de um véu de retórica e demagogia uma vontade muito real de estabelecer poder autoritário e arrasar por completo as liberdades humanas.

 

Em Portugal pode viver-se um período de estabilidade política e crescimento económico, mas não estamos de forma alguma isentos de sofrermos de semelhantes condições sociais e de calamidades como um novo Salazar. Ainda mais em risco ficamos se perdermos rumo daquilo que verdadeiramente importa, e engavetarmos o 25 de Abril na estante do esquecimento.

 

É por esta razão que é vital recordar incessantemente esta data. Mas recordar o 25 de Abril é mais do que festejar uma vez por ano com alarido musical e inconsequentes fogos de artificio imemoráveis. É mais do que ouvir de vez enquanto com avassaladora indiferença “Grândola, vila morena” ou “E Depois do Adeus” e cantarolar passivamente, ignorando a profundidade das suas letras. Recordar o 25 de Abril é viver esta experiência menosprezada que se chama democracia, é desfrutar do pleno poder da projeção das palavras sem receio de repercussões, é poder escolher a religião a que se recorre para dar esperança à vida em momentos desoladores, e é conseguir dar significado pessoal a cada vida individual sem imposições de um Estado opressivo.

 

Se é verdade que a democracia tem ineficiências e que sofremos de maus momentos devido a um sistema dúbio e ensurdecedor, é também verdade e bem mais importante lembrar que é a democracia que nos serve melhor para regermos as nossas efémeras vidas. Aqueles que acodem a saudosismos autoritários sob o disfarce de mudança utópica são o grande perigo à democracia e à liberdade de expressão, identifiquem-se eles com a direita ou a esquerda.

 

A preservação da democracia e a garantia de liberdade individual e intelectual pode apenas advir de uma luta constante, de uma vigília permanente dos valores e ideais da sociedade e das narrativas políticas percutidas pelos líderes nacionais e mundiais. Se for necessário sair à rua em protesto, então que seja, mas mantendo sempre elevado, acima de tudo, o sentido de comunidade e de entreajuda. Se for imperativo remover políticos do seu lugar e direcioná-los para a prisão, então que seja, zelando sempre pela prevalência da lei e evitando violar liberdades individuais. Se nos impuserem uma vontade Estatal profundamente desfasada da realidade, se nos incutirem com obrigatoriedade valores que rompem a nossa independência intelectual, se nos silenciarem as vozes e nos oprimirem a expressividade, se deturparem o sentido da democracia e da liberdade para servir propósitos que não os do bem comum, então estejam preparados para enfrentar os cravos vermelhos.

 

Apenas não podemos deixar o 25 de Abril morrer.

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publicado às 21:09


13

por O Gil, em 13.04.17

Há na arte uma característica que escapa a qualquer outro aspeto da expressão humana, até mesmo à comunicação direta entre pessoas. Na arte há um meio, uma ponte, que liga as perceções da realidade, impossíveis de compreender fora de cada pessoa, que pinta nas telas da emoção a visão daquilo que os outros sentem, o que realmente pensam.

 

13 Reasons Why, a recente série da Netflix, é arte. Mas não é uma ponte, pois assim a travessia seria relativamente simples. Não, é um purgatório pelo qual se tem de ultrapassar para atingir a revelação final. 

 

Quando comecei ver esta série, um dia antes de escrever este texto, não tinha na minha mente uma imagem do que esperar nem expectativas para o que se avizinhava. De facto, só compreendi realmente as camadas de subtexto que constituem esta obra assim que a terminei. No fim, tudo fez sentido. Mais que fazer sentido, um meio foi criado para que um sentimento pudesse ser transportado na sua totalidade entre seres pensantes.

 

Este pensamento é o da dor da vida. E pensamentos são teias abstratas que se têm em abundância, mas o que os distingue do ato de mover um braço ou piscar os olhos são os sentimentos que os provocam, ou os sentimentos que provocam. A dor da vida é a melhor descrição para o peso que se arrasta no advento das tragédias, não a dor da morte pois essa nunca é sentida por aqueles que da morte sofrem. Em Thirteen, a dor da vida é o brotar de um novo dia após o suicídio de uma doce rapariga. A dor espalha-se como um vírus e progressivamente contagia todas as personagens, mas principalmente, contagia-nos a nós, os espectadores. 

 

Esta dor, no entanto, não surge por um acaso cósmico. A dor surge porque é muito real. É uma dor que todos sabemos que existe, e embora não lhe demos atenção na maioria dos momentos, é uma dor que nos persegue até que nos alcança no final da nossa narrativa. Nesse fim, pode dizer-se que é aliviada, mas não é necessariamente verdade, já que o que desaparece é o veículo para essa dor, nada mais. 

 

Mas essa dor é mais que uma premonição catastrófica, essa dor é uma marca de nascença que arde quando tocada, e pela lente da personagem que tira a sua própria vida é incendiada em nós uma purga de consciência. Um sufoco sofrido em testemunhar, tal como as personagens que espelham uma vida tão real, uma espiral descendente e imparável que resulta num culminar indescritível, um momento cinemático tão genialmente representado enquanto arte que é apenas possível transmitir o seu significado observando essa mesma arte. 

 

E é isso que sugiro. Testemunhem este segmento de arte a imitar a vida, testemunhem outros tantos com inúmeros outros significados e variadas imitações, por vezes criações. Mas acima de tudo, testemunhem a vida e aqueles que vos rodeiam, pois não se sabe quando a sua narrativa pode terminar. 

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publicado às 05:46


Memórias ao Vento

por O Gil, em 07.04.17

DSCN2361.JPG

O vislumbrar da terra que nos viu nascer.

Uma memória efémera

Que esvoaça ao vento

Como a poeira que paira nas distantes paisagens.

 

Como a poeira no vazio perdida,

A memória viaja em conjunto com a brisa,

Cambaleando pelas pradarias ao ritmo do esquecimento,

E dispersa-se no céu com o soprar do tempo.

 

Pelo tempo que passa sempre mais depressa,

A erosão da memória deixa apenas o resíduo,

Uma marca gravada em tom suave,

Quase impossível de escutar,

Que nos sussura apenas ao ouvido

Que o nosso tempo está a acabar.

 

 

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publicado às 00:54


A Persistência da Morte

por O Gil, em 01.04.17

Passados tantos dias

desde que a nauseabunda morte

se afincou em mim

e me marcou a vida enquanto moribunda,

 

Que nunca mais me ocorreu,

talvez porque nunca antes se sucedeu,

interpretar a limitação existencial que me resta,

para criar e dispersar pelo mundo

a minha marca de Caos.

 

Talvez se não tivesse nascido humano,

se não fosse por isso limitado

a procurar significado na vida,

quando ela descende em túnel sobre mim,

como um vácuo etéreo 

de onde nunca me poderei libertar.

 

Talvez num outro universo...

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publicado às 13:55


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