Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



 

Vivo a vida de outras pessoas.

Não posso admitir que carrego a minha própria vida para a mente de outros, pois não acredito que tenha existido um momento onde fui eu próprio. De certa forma, nunca possuí essa característica, do vago que me recordo sempre fui o que os outros são; a minha existência sempre pertenceu a terceiros. Digo que pertenço com um toque de inevitabilidade, pois apesar de poder escolher em quem me torno, tenho que o fazer incontornavelmente.

Não obstante da estranheza do ato, este é de facto trabalhoso. Para me ser possível tomar a vida de outrem como minha necessito de estudar o alvo. Este processo é de tal forma complexo que me suga todo o tempo e energia; dou por mim nos becos mais escuros e restaurantes mais nojentos a anotar cada detalhe de cada pessoa. No entanto, a dificuldade não termina quando cessa o estudo, aliás, essa é a parte mais simples. Os momentos mais enfadonhos são os de transformação, pois são extremamente longos. Poderá surgir a ideia de que a transição de pessoa para pessoa é imediata, mas a realidade é exatamente o oposto. Costuma demorar semanas. A pouco e pouco vou perdendo a minha forma física, até que chega o ponto onde sou apenas o resíduo quântico mais elementar possível. E é pouco depois desse culminar que me 'torno'. O registo sub-atómico constrói a minha consciência no cérebro do alvo e transforma o seu circuito ao ponto do seu registo desaparecer.

Que evento mais surreal para aqueles que adquiram conhecimento dele. Para mim sempre foi a mais regular das trivialidades. Tão monótono e automático como respirar.

Um cientista perguntar-se-ia como é que este processo funcionava, um psicólogo como eu me sentia e no que pensava e um filosofo que forma de existência me pertence. Gostava de poder responder a todos, pois significaria que me conhecia, ou pelo menos o que sou, nem que muito superficialmente, mas temo que todo o tempo do universo se vai esgotar e mesmo assim não irei saber.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 21:59

 

Traição, calúnia, assassinato social. Crimes para alguns. Para mim, no entanto, que sou uma besta pérfida, é apenas uma das guias da minha moralidade provinciana. Palavras e jogos mentais são as minhas adagas, e são estes os que cortam mais fundo.

Neste poço sujo em que vivo, onde caminho descalço e de pés atulhados no esterco, resta-me muito pouco para além de difamar. Com a ausência de inteligência e de atividade mais pertinente, reduzo-me às práticas de porco social; um político idiota entre os amigos que destrono e devoro por insanidade cerebral. Insanidade cerebral não é a melhor expressão, pois parto do principio que possuo alguma espécie de massa cinzenta capaz de processamento nervoso. Eu não. Não, não, não ! Eu sou uma pérola amorfa e acéfala da humanidade. Aliás ! Pode dizer-se que eu sou.. a humanidade ! Pode dizer-se.. que sou a representação mental do ser humano em forma física. Sou a personificação perfeita do homem.

Para expandir a situação além do reino teórico, vou discursar brevemente sobre uma situação particularmente degradante perpetuada pela minha insensível pessoa.

À cerca de dois dias, após uma refeição preenchida e revigorante, ocorreu-me a brilhante ideia de caminhar pelo parque Eduardo VII sob o efeito da melhor cocaína. Sim, porque além de sociopata narcisista sou também um ávido consumidor de substâncias ilícitas. Mas apenas as mais ilícitas. Tudo isto com intenção de ser abertamente hipócrita. Se existe uma atividade que desfruto praticar é a de ser hipócrita. Mais especificamente, nesta situação, julgar prostitutas pelos seus níveis éticos inferiores e as suas ações condenáveis de um ponto de vista religioso. É um passatempo que adquiri na minha infância no profundo Alentejo.

O Alentejo é geralmente conhecido pela comunidade provinciana como a sua Utopia. Pessoalmente, considero um bom sitio para aprender e iniciar os atos de julgamento, no entanto, com o passar dos anos, comecei a sentir-me sufocado. Comecei a sentir que só havia uma pequena quantidade de pessoas e uma ainda menor variedade de valores inovadores que podia criticar, e para resolver esta crise de identidade, ingressei na Universidade da Vida de Lisboa, na cidade onde considerei que podia dar verdadeiro uso aos meus talentos retrógados; um sítio onde podia ser eu próprio.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 17:58


As Confissões do Zé Povinho

por O Gil, em 26.09.15

"As Confissões do Zé Povinho" é um conjunto de pequenas histórias que irão servir como sátira ao humano comum e ao seu comportamento de cariz provinciano. Cada história apresenta uma crítica diferente através de perspetivas semelhantes mas com focos variados. O objetivo final é criar um perfil psicologico detalhado para este novo ser perspicaz e infinitamente culto que continua a desafiar as regras mais profundas da seleção natural.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:54


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D


Pesquisar

  Pesquisar no Blog