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O Melhor Cinema de 2017

por O Gil, em 11.02.18

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O ano 2017 caracterizou-se por ser um ano repleto de filmes focados em contar histórias aparentemente pequenas, centrados nas personagens, nas suas viagens, pensamentos e experiências, e, por consequência, na forma como estas histórias se relacionam connosco, os espectadores. Foi um ano de cinema humanista, e não apenas por essa razão foi também um grande ano para o cinema, sendo que mesmo aqueles filmes que se consideram de maior escala na bilheteira reverteram, no fim, para as histórias pessoais das suas personagens.

Terminado o ano, chega então a altura de refletir sobre a arte criada e as 10 peças cinematográficas que mais se destacaram. Podiam ser 11, ou 9, mas 10 parece um número redondo e bonito.

10. Loveless

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Andrey Zvyagintsev regressa 3 anos após o seu bem-sucedido Leviathan para pintar de novo a realidade trágica da Rússia contemporânea. Ao enfrentar pesados dramas familiares uma criança desaparece, sem se perceber se se trata de um rapto ou de uma fuga. No entanto, o foco do filme não recai no desaparecimento em si, mas nos motivos familiares que tornam a possibilidade de fuga bem mais provável que o rapto. Loveless transmite tragédia na sua forma mais pura, ao se testemunhar o desenrolar de eventos que levam ao distanciamento entre casais, o seu efeito nas famílias, e toda a envolvente social que alimenta esse sofrimento.

9. Columbus 

 

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A primeira longa metragem de Kogonada, cineasta Sul-Coreano previamente conhecido pelos seus ensaios sobre a arte cinematográfica e os grandes nomes da sua história. Embora a sua primeira aventura por este mundo, Kogonada apresenta em Columbus uma perícia de mestre na arte de construir um filme preenchido de de subtexto e significado. Esta é uma obra que contrasta as várias fases de uma vida humana, a permanência e impacto das decisões tomadas, mesmo em tenras idades, e ter de enfrentar, por vezes, a dificuldade ensurdecedora em tomar uma simples decisão. O filme recorre à cidade que lhe forneceu o nome (Columbus, Ohio) e à contemplação da sua arquitetura modernista para elevar os temas da narrativa e, eventualmente, provocar o despertar intelectual da personagem principal.

8. The Florida Project

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The Florida Project é um filme assustadoramente realista. Não que contenha algo de particularmente aterrorizante, como um monstro escondido na sombra de um quarto mal iluminado. Tem algo bem mais profundo e, de certa forma, transcendente, na forma visceral como representa uma realidade que é em simultâneo tranquila e cruel. O filme mostra a vida de uma mãe e filha que vivem em condições precárias num motel da Florida, sabendo que é o melhor que poderão alguma vez encontrar, e que única razão por que não são despejadas é a benevolência do gerente do hotel. Brooklynn Prince, atriz principal com apenas 7 anos, é também assustadora ao ser uma das melhores performances de 2017.

7. Lady Bird

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Histórias sobre a transição da adolescência para a vida adulta são populares hoje em dia. São também frequentemente medíocres. Surjam esses filmes a partir do desejo de fazer comédias extravagantes, ou sejam eles adaptações de livros para adolescentes que são desprovidos de qualidade à partida, o resultado roça sempre nos mesmos temas, nos mesmos clichés, e encaixam todos na prateleira do esquecimento. Lady Bird, felizmente, é nenhuma destas coisas. É um filme refrescante, inteligente, engraçadado e trágico. Tudo isto em simultâneo. Torna-se de imediato num filme diferente por ter sido evidentemente construído com maior cuidado e talento que a maioria dos seus pares. Porém, não deixa de ser fiel às suas raízes humanas, dedicadas às jornadas das personagens, que deviam ser traços comuns a todos os outros filmes do género.

6. Blade Runner 2049

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Num mundo de sequelas desnecessárias e franchises inchados, Blade Runner 2049 demonstra que há razões fortes para dar seguimento a uma história que até ao momento se pensava terminada. As ideias cultivadas pelo Blade Runner original recebem uma nova estrutura para serem estudadas, mas ao mesmo tempo novos conceitos são introduzidos, realçando o humanismo num mundo repleto de máquinas, caos e poluição. Além de cimentar o lugar de Dennis Villeneuve como um dos grandes realizadores contemporâneos, Blade Runner 2049 é um ensaio sobre o que significa ser humano, sobre o que significa sentir e sobre o que significa existir num mundo em que o natural e o sintético, o físico e o imaginado, são indistinguíveis entre si.

5. Dunkirk

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Christopher Nolan é, provavelmente, o realizador moderno que possui o nome mais reconhecido. Numa reviravolta ao habitual, o seu reconhecimento na cultura popular é inteiramente merecido, pois é sem dúvida um artista e inventor que empurra as barreiras do cinema além do esperado. Em Durkirk, Nolan vai além das suas próprias barreiras ao explorar uma história baseada em factos reais, contrariando a sua paixão pela ficção e conceitos intelectualmente estimulantes. Este desvio do padrão não deteriora a qualidade nem o conteúdo do filme, mas atribuí a Dunkirk uma série de características que o tornam original, épico e profundo, mesmo sem recorrer quase a diálogo algum.

4. A Ghost Story

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Por vezes surge um filme que suscita o pensamento: "como é que nunca ninguém pensou nisto antes". A Ghost Story é o perfeito exemplo do tipo de obra artística que justifica este pensamento. Embora por vezes boas ideias não se traduzam em bons filmes, este não é o caso. A Ghost Story é um dos filmes mais criativos e originais na memória recente do cinema, desde o conceito à execução. O filme recorre ao popular conceito de fantasmas e dá-lhe uma vida só sua, preenchendo-a de importância e melancolia, partindo de uma tragédia na vida de um casal para conceitos filosóficos que transcendem barreiras físicas e psicológicas. Através de uma das habituais fontes de terror, A Ghost Story conta uma das histórias mais humanas de 2017.

3. The Shape of Water

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The Shape of Water é um dos melhores filmes românticos de toda a história do cinema, apesar de uma das personagens do romance nem ser humana. Guillermo del Toro provou ser um visionário do género fantástico com a sua obra-prima "Pan's Labyrinth", no entanto é com The Shape of Water que a sua reputação representa verdadeiramente o seu talento, além do que se poderia considerar sorte ocasional. Além de um encantador romance, o filme salta entre géneros, conceitos e narrativas para contar uma história sobre personagens que atravessam adversidades, que sonham com algo maior que elas e que no final... bem, contar o que acontece no fim estragaria o filme. No final coisas acontecem, e a viagem das personagens é concretizada de uma forma que será sempre subjetiva à vontade do espectador. É esse o verdadeiro poder da fantasia de del Toro. A fantasia é aquilo que o espectador deseja, e as respostas são aquelas que ele mais procura.

 

2. The Square

 

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Um filme Sueco com ambições internacionais, The Square é uma crítica audaz à arte contemporânea, à industria que vende e produz este conteúdo, e à sociedade que a consome. Além da análise artística, The Square procura as razões humanas que levam ao estado presente das coisas, e encontra-as explorando a reação de uma sociedade muito como a nossa a uma exposição controversa, que recorre a táticas duvidosas de relações públicas para publicitar a exposição. The Square é um dos filmes mais divertidos de 2017, pois apenas dessa forma seria possível explorar a dimensão rídicula de certos hábitos adquiridos na sociedade moderna.


1. Phantom Thread

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É apenas adequado que o melhor filme de 2017 seja também o mais difícil de descrever. Como nenhuma descrição é apropriada, limitar-me-ei a dizer que é o resultado da mente brilhante de Paul Thomas Anderson ao misturar o mundo da moda nos anos 50, um romance peculiar (no mínimo) entre duas personagens com vida própria e profundidade da forma que apenas PTA é capaz de criar, e uma última performance arrebatadora do único Daniel Day-Lewis. Phantom Thread é ainda o expoente máximo do cinema em 2017 por ser o epítome dos traços gerais que são comuns a tantos filmes deste ano, transmitindo-os para a grande tela naquele que é um clássico instantâneo.

 

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publicado às 22:15



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