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Matrimónio Ilusório

por O Gil, em 10.01.16

Cada fantasia tomava a forma de uma realidade e imediatamente por consequência essa denominação se tornava enganadora, pois quando o sonho compete com o real apenas os detalhes mais discretos permitem uma distinção entre narrativas. Pormenores facilmente ignorados quando a natureza intrigante e acelerada de um delírio filosófico ficcional se sobrepõe aos seus problemas de continuidade racional. Apenas um mínimo de lógica deve permanecer constante para que a ilusão não colapse premeditadamente.

Para Ameus e Sona a vida consistia numa divisão entre dois ramos de experiência distintos mas intimamente relacionados. O lado dito de real, onde conviviam um com o outro, utilizando a paixão e desejo sexual para estimular o outro lado, este considerado o principal. Embora o sentimento mútuo presente no organismo de cada um fosse inquestionavelmente vigoroso e pulsante, limitá-lo apenas a um reino muito reduzido de possibilidades era a maior tragédia que um ser senciente podia ultrapassar no decorrer do seu tempo material.

Conter no espaço de uma relação afectuosa entre seres humanos a capacidade de criar mundos imaginários tão irregularmente autênticos desbravava caminhos inexplorados para múltiplas aventuras com os contornos mais diversos, pelo que transformava enfáticamente aquilo que parecia ser uma burocracia alienante presente em todas as relações interpessoais. O único efeito secundário era uma sensação crescente de tédio e desprezo pela realidade factual, pois nenhuma sequência de eventos no estado atual da sociedade humana permitia caminhar de mãos dadas pelas planícies ocres de uma lua desconhecida de Saturno até um arranjo cuidado de toalhas e iguarias alienigenas afrodisíacas que conduziriam, após observações da silhueta de Saturno no céu azul plácido e estrelado, a um ato sexual exageradamente prazeroso. Até a mais simples concretização de um momento mágico à janela na mais mundana das casas Lisboetas, onde a luz e o tom do mundo se ajustavam em perfeição poética aos desejos uníssonos de ambas as partes, era motivação suficiente para ignorar os gritos irados dos chamamentos da realidade.

Com a leveza de um gesto carinhoso também o fenómeno do medo da morte se dissipava. Não era possível determinar se a sua foice já tinha colhido algum deles pois a sua predileção por destruição de fantasias só englobava aqueles que desde o ínicio admitiam que não lhe conseguiam escapar. No meio de uma inocente brincadeira duas pessoas apaixonadas encontraram um meio de enganar a morte, ou pelo menos a noção de algum deles ter morrido, pois a teia imaginativa era de tal forma complexa que impedia o mais definitivo dos fins de resolver o seu efeito na mente. O único momento em que a morte era de facto ocorrente era também o momento em que a consciência deixava de ser consciência para em simultâneo cessar de fantasiar bem como ser impedida de concluir que a vida tinha acabado. 

 

Apenas quando a morte chegar vai o sonho terminar, até esse momento teremos uma quase infinitude de oportunidades de negar o acontecimento. Quando um de nós for, é uma questão de o que ficar se conseguir enganar durante tempo suficiente até partir também. O maior esforço será esperar pela reunião.

 

 

 

 

 

 

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publicado às 22:51


3 comentários

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De Anónimo a 11.01.2016 às 14:15

The great gift that humans have:to be able to dream and to Picture our own reality! Fantastic
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De O Gil a 11.01.2016 às 17:19

A way to become larger than life. Thank you :)
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De Olinda Gil a 11.01.2016 às 20:35

A essa magana não há fantasia que a iluda.

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