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Lágrima Anal

por O Gil, em 11.01.16

 

No centro do estúdio reside um corpo feminino,

uma forma da natureza

a ser vislumbrada enquanto arte.

Os contornos e as curvas são analisados ao pormenor

e as expressões são comparadas a números

que dirão se são simétricas ou não.

As luzes contrastantes de várias direções definem um foco,

e a câmara descende do topo da cabeça até aos dedos dos pés,

percorrendo em detalhe a paisagem corporal que encontra.

Algures no meio aritmético a câmara pausa e aproxima

para um plano mais definido na proximidade.

Em linha reta ela caminha procurando estabelecer

o ponto visual de equilibro que mais favoreça as nádegas,

mas algo está fora de sítio.

O realizador grita num pico de fúria por não saber

o que está errado. No fundo nem sabe o que quer.

As nádegas simétricas e perfeitas não preenchem o monitor

como deseja.

As tonalidades variantes da pele a refletir as luzes são belas

mas dissipam-se no território errado.

O drama que o artista quer transmitir é diferente, é mais profundo

e obtuso, e num salto de epifania grita em alegria por saber

onde a câmara se deve concentrar.

No anûs.

A rapariga, sem reação aparente pois o seu trabalho é aquele,

conduz as suas mãos às nádegas para as afastar,

abrindo espaço para a luz penetrar

e para a câmara prosseguir em frente num zoom

inovador e revolucionário.

No monitor gigante apontado à equipa de produção

está agora apresentado um plano poético

e cinemático do anûs feminino.

Toda a equipa entra em erupção por verem

tão claramente uma obra de arte extraída com tanto

esforço e mérito.

Subitamente, um silêncio absoluto toma controlo do estúdio,

quando do anûs da rapariga sai uma lágrima triste e salgada.

Esta modelo continha nela uma dimensão de sentimentos maior

que o esperado,

e compreendia no objeto que se tinha tornado,

e por isso era-lhe impossível conter a raiva da tristeza

que a inundava por dentro.

Apenas uns momentos após o evento,

todas as pessoas no estúdio choravam lágrimas anais,

pois sabiam a tragédia que ali tinha ocorrido,

a ideologia a que tinham sucumbido,

e o orçamento que tão excessivamente tinha sido despendido.

 

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publicado às 17:46



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