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Destino de Burro

por O Gil, em 12.12.15

Entrada do diário de Salvador Palmadinha, onde relata resumidamente a sequência de eventos que levou à revolta dos Asnos e subsequente conquista do mundo por parte dos mesmos.

Salvador Palmadinha é um dos fugitivos humanos ao Império Ásnico.

 

Que humano do passado alguma vez teria pensado que o mais sábio dos animais era o Asno. Que humano ultrapassado poderia sequer ter imaginado a dimensão do poder intelectual do Burro. Era impensável. No entanto, as circunstâncias atuais comprovam que o atraso cerebral era exclusivo ao humano, uma vez que deixou a sua sociedade ser conquistada pelo mais obnóxio e ostracizado equino.

A verdade que se ocultava a todos, é que há muitos séculos que os Asnos concebiam uma revolta para destronar os humanos de forma a tomar controlo do mundo - foi um golpe de génio, não o posso negar.

Tudo começou quando, por egoísmo e necessidade de maior mobilidade de cargas pesadas e produção, tribos pastoris da região da Núbia, e posteriormente os Egípcios, supostamente domesticaram o Burro. Inicialmente, a comunidade de Asnos interpretou esta dramática mudança de estatuto como uma derrota pesada, e fácilmente sucumbiram debaixo do peso do seu falhaço ao se tornarem totalmente submissos.

Foi apenas milénio e meio depois do nascimento de Cristo - defensor dos direitos dos Burros - que uma eventual revolta começou a ser planeada, quando um Asno particularmente dotado intelectualmente conhecido como Asnitler Zalin constatou que a sua espécie sofria de escravidão há demasiado tempo, e que o momento de cessar a inércia do domínio humano sob os Asnos tinha chegado. Esta epifania de rebelião coincidiu com a Segunda Viagem de Cristovão Colombo às Américas, para onde ele e muitos outros seus camaradas estavam dirigidos para uma nova fase da sua servidão. 

Semanas antes de partir, Zalin dedicou todo o seu esforço persuasivo a convencer os seus pares a aliarem-se a si num plano secreto para atingirem liberdade e derrubarem os seus mestres opressivos. Para sua surpresa, não houve uma única dúvida sobre o seu plano por parte de nenhum Asno; todos sentiam o mesmo ódio e desespero, e tinham a certeza que a situação tinha que mudar.

A mensagem de revolta rápidamente se espalhou pelos continentes onde cada vez mais Burros se dispersavam, e com a expansão da sua espécie também crescia o seu desejo de guerra pela liberdade. No entanto, de alguma forma, todos sentiam que alguma peça ainda não estava no lugar para lançarem o seu ataque. O seu lider idealista tinha falecido e encontravam-se sem uma personalidade que fosse capaz de os guiar para a vitória. Portanto, tinham apenas que esperar por alguém capaz de os liderar. 

Os anos passaram e um culto começou a formar-se à volta da figura histórica que fora Asnitler Zalin, ao desenvolver os ideais de liberdade que agora tanto desejavam. Este culto baseava-se na premissa que Zalin era um Asno com capacidades sobreburrais, um exemplo de virtude e conhecimento para todos os Asnos, e que eventualmente iria reencarnar num novo corpo para concluir o processo de revolta que tinha começado. Porém, esta permissa era falsa. Os burros eram apenas mais uma espécie de animal entre tantas outras, sem poderes místicos e consciência independente de si própria. Trágicamente para a causa comum a todos os Asnos, nenhum deles se apercebia da falsidade deste culto religioso, e por isso, a sua revolta estava aparentemente condenada ao falhanço.

Ao longo dos séculos também se foram desenvolvendo circulos aristocráticos de Burros, que supostamente detinham uma linhagem histórica que de alguma forma teria tido contacto com Zalin. Um destes descendentes era Burrsputin Arsnev, patriarca de uma das mais importantes familias de Asnos no mundo, a linhagem de Arsnev. Burrsputin era um Asno altamente inteligente e pragmático, tinha uma visão racional e ciêntifica do mundo, o que o levava a acreditar em segredo que o Culto de Zalin era uma falácia. Este conhecimento era desconfortante, pois impossibilitava toda a ideia de revolta e liberdade que tão ávidamente defendia, mas contrariar o Culto era um ato inviável, pois nenhum Burro iria renegar o dogma a que estava tão habituado. 

Ao caminhar pelo prado numa noite de lua cheia, ponderando sobre uma possível solução para a problemática que a sociedade dos Asnos enfrentava, Burrsputin teve uma epifania. Esta seria a segunda na história dos Burros, e tão importante como a primeira. Enquanto olhava para o céu nocturno, delineava através das estrelas o percurso meticuloso que teria de seguir para conseguir a revolta que à tanto tempo o eludia. As linhas que traçava tomavam a forma de um Asno, uma falsa reencarnação capaz de convencer o seu povo a caminhar para a guerra. Embora ele estivesse bem posicionado, era muito tarde para se tornar tal figura, portanto decidiu conceber um filho, que agraciado à nascença com o poleiro aristocrático era o encorporamento perfeito de circunstâncias e possibilidades para se tornar O Reencarnado. 

Burrsputin necessitava apenas do clima de tensão ideal para que o nascimento do seu primogénito lhe garantisse o estatuto indicado. Para atingir esse fim, era imperativo o desenvolvimento de crispação interna e externa com os humanos. 

Através de mensageiros e persuasão eficaz conseguiu instigar Burros esquizofrenicos a causarem violentos atentados a líderes humanos mundiais enquanto visitavam quintas. Estes atos trouxeram as consequências desejadas; o assassinato dos criminosos e a perseguição mundial a Asnos potencialmente perigosos. A execução perfeita desta fase do seu plano garantiu-lhe o clima de desespero desejado entre os Burros, que se sentiam sem sítio onde se esconderem ou alguém para os ajudar. 

Restava apenas conceber o seu filho, a parte menos desagradável, na verdade, uma vez que lhe bastava fornicar uma fémea qualquer e ficar com o rebento. Assim o fez. Encontrou a mais bela e pujante fémea possível e realizou o ato com o prazer que um dono do tempo e mestre do destino teria.

Durante muito tempo que se faz agraciar entre as plebes e nobrezas de Asnos, e foi também no decorrer desse tempo que publicitou o nascimento do seu filho, e quão forte era a sensação dentro dele que este era O Reencarnado. Esta propaganda, face a um povo fragilizado e com medo, era esperança suficiente para reacender a chama da revolta. 

No momento do nascimento, apenas ele e a fémea estavam presentes. Não era por acaso, sendo que após a cria ter sido parida, Burrsputin sufocou a fémea e mãe do seu filho até à morte. Não podia arriscar outra figura parental a competir com a sua atenção e educação, e era a oportunidade perfeita para dramatizar um acontecimento histórico onde O Reencarnado tinha nascido, arrastando consigo a vida da sua mãe e desgostando o seu pai pela tragédia acontecida, mas acendendo a vela da esperança, pois com o seu nascimento vinha a erupção de um poder ancestral que iria trazer liberdade.

A educação que deu ao seu filho durante os anos de crescimento foi severa mas eficaz. Dotou o seu filho, Asnakin Arsnev, dos conhecimentos necessários para liderar com autoridade e benevolência simultânea uma revolta pela liberdade e um novo mundo cheio de oportunidades, onde a justiça entre Burros e superioridade dos Asnos é prioridade máxima. Ao mesmo tempo, cultivou a certeza entre o povo que o seu filho era O Reencarnado e que a revolta estava para breve, enquanto eliminava todos aqueles que se opunham ou dúvidavam das suas pretensões.

Após séculos de espera e anos de preparação estratégica e bélica, o - a esta altura - Líder Supremo Asnakin, decretou Asnus Revoltaburrum, o estado de emergência que lançava sobre o mundo dos Asnos o cumprimento obrigatório de uma sequência de passos necessários para atingir vitória total sobre os humanos. Empunhar as armas que foram roubadas e enterradas e vestir as armaduras produzidas ao longo dos anos era o centro do plano, pois permitia a distração e destruição necessária para o verdadeiro plano se concretizar.

No meio da batalha principal, ocultos numa cúpula de poeira e cadáveres, encontravam-se Burrsputin e Asnakin a combater ferozmente contra os humanos, mas algo isolados, o que indicava que o momento era perfeito. Burrsputin, ao reconhecer a distração dos seus camaradas, degulou o seu filho subita e rapidamente, e imediatamente correu para trás para se juntar ao batalhão em gritos de raiva e tristeza, anunciando a morte do lider e do seu filho. Em choque, o batalhão paralizou perplexo ao ouvir às notícias, mas Burrsputin, ao sentir em si o culminar do seu plano genial e uma força interior a despoletar, gritou e berrou as palavras de vingança e ódio, de conforto e esperança que o seu povo necessitava de ouvir, conduzindo de novo o exército para a batalha. Guiados por pura fúria os Asnos eram imparáveis, mas a guerra não iria ser ganha assim. 

Burrsputin, após garantir que as batalhas estagnavam numa duração de tempo apropriada, reuniu o grupo de Asnos especialmente destrutivos que treinava secretamente durante os meses que antecediam a declaração de revolta. Num horário muito curto e de conclusão impecável, eliminaram através de recursos menos honráveis mas eficazes os líderes mundiais humanos, garantindo controlo de todas as bases militares, arsenal de guerra e ogivas nucleares, deixando os exércitos humanos perdidos em si mesmos, sem vitória à vista e liderança para os guiar.

No resultado do lançamento de mísseis a alvos e locais específicos, e embora a devastação fosse inigualável, os humanos estavam longe de extintos, porém, escapáva-lhes qualquer capacidade de dar a volta à situação, pelo que não tiveram alternativa se não rederem-se e subjugarem-se aos novos donos do mundo. Restava agora uma personalidade dos Asnos para os guiar nesta nova era, a era dos Burros.

Enquanto cuidavam dos feridos e restituiam ordem na paisagem, os Asnos avistavam um vulto glorioso que se movia pela poeira flutuante; era Burrsputin, regressava sozinho - assassinou todos os membros do grupo que tinha recrutado para construir uma narrativa credível, pois ninguém sabia que partira acompanhado. Sem dizer uma palavra, foi recebido com com berros excêntricos de pura felicidade pelos seus camaradas. Gritavam-se palavras de ordem e intenções de declarar Burrsputin o novo Líder Supremo, e antes de poder protestar ou aceitar a honra do pedido, levataram-no no ar; levitando entre corpos e costas sob a multidão que era toda sua.

Após longas festividades e declarações emocionais de amor pela liberdade e pelo seu povo, Burrsputin foi declarado Líder Supremo dos Asnos Burros. Após tantos anos, atingindo mais de metade do seu tempo de vida, Burrsputin conseguira finalmente aquilo para que sempre trabalhou; a revolta e, em último lugar, poder supremo. 

Os humanos sobreviventes da guerra tornaram-se refugiados de si próprios, quase nenhum foi capaz de reter a sua liberdade fugindo aos Burros. Praticamente todos os humanos eram escravos dos Asnos, serviam apenas para trabalhar na reconstrução do mundo e no erguer do Império Ásnico e nas suas infrastruturas. Depois desse objetivo ser atingido, os números de humanos foram reduzidos drásticamente. Os que sobraram ocupam agora funções de manutenção e de serviço à nobreza Ásnica. A plebe Búrrica não ocupa funções de nível que seria considerado baixo por padrões humanos, a sua função agora é apenas de caracter produtivo altamente especializado, artístico, social e de coesão geral da sociedade.

Escrevo neste momento esta entrada no meu diário com a única esperança que resta em mim, embora que muito ténue e ignorante: que algum dia um ser humano ou outra espécie avançada leia o resumo da ascensão dos Asnos e chegue, como eu, à conclusão que a existência de espécies evoluídas como as nossas é totalmente fútil. Se nunca poderemos viver eternamente, é totalmente desnecessário ocupar imensuráveis quantidades de tempo em revoltas e guerras por liberdades falsas e temporárias. Peço, portanto, à próxima espécie que decida embarcar numa jornada semelhante, que mate esta merda toda e que se mate a si também quando terminar a tarefa.

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