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A Morte de Um Homem Chamado Z

por O Gil, em 28.08.17

I

Era segunda-feira e Z estava a morrer, mas ele não fazia ideia. Sentado na sua poltrona em frente à lareira, rodeado por livros, rabiscava num papel palavras e ideias. O único pensamento que não fluía das suas mãos de escritor para o papel era a ideia da sua morte, ou melhor, que tal evento estivesse a acontecer naquele preciso momento.

Z levantou-se da sua poltrona e pousou os papeis numa mesa de madeira ao seu lado. Da mesma mesa verteu whisky para um copo. Elevou o copo à sua boca e engoliu todo o líquido num único gole, sentindo a garganta a arder. Como poderia um homem morto, ou em vias de tal, sentir o quer que fosse? A verdade é que Z sentia uma multidão de emoções dentro de si, como qualquer outra pessoa. Haviam as saudades de tempos passados e pessoas esquecidas, e as preocupações do presente com o desconhecido do futuro. Os medos, as paixões, os rancores, os sabores, as histórias, os sítios e as dores. Tudo isso fazia parte dele, como sempre fizera, e em nada diferente de outro homem qualquer. No entanto, Z continuava a morrer, e para tentar remediar essa situação, três paramédicos arrombaram a sua porta com toda a força, desfazendo-a em bocados.

Os homens arrastavam entre si uma maca, e corriam pela casa num pânico normalmente associado àqueles que estão a morrer. Uma aparente troca de estados, uma vez que Z olhava para eles estupefacto, sem reação e sem noção do que se estava passar. A única coisa que lhe veio à cabeça foram palavras, palavras que vociferou o mais alto que era capaz para tentar ganhar sentido da situação.

“Mas que merda é esta!?”

“O senhor está a morrer, estamos aqui para o salvar!” – responderam os paramédicos, num frenesim apressado. Pousaram a maca no chão e correram para Z, tentado agarrá-lo com o intuito de o transportar para a ambulância. No seu paciente encontraram apenas relutância, insultos e gritos que exigiam explicações.

“Larguem-me, seus cabrões! Mas o que vem a ser isto!? Se for uma partida digam já, se não parto as vossas bocas todas!”

“Tenha calma senhor, estamos aqui para o ajudar!” – disse um paramédico.

“O senhor está a morrer!” – disse outro paramédico.

“Calma!? Calma o caralho! Estou mais vivo que qualquer um de vocês, e juro que se me largarem vou matar-vos aos três!”

Z, num alvoroço enraivecido, encaixou um pontapé nos tomates de um dos paramédicos. O homem caiu no chão chorando e grunhindo cheio de dor, como um porco no matadouro. Um dos outros paramédicos decidiu tomar ação temporária, mas decisiva face a um paciente incontrolável, e injetou-lhe algo diretamente no pescoço. Antes de entrar no reino da inconsciência, Z largou os seus últimos berros de raiva, ainda tentando perceber o que estava a acontecer. Apesar de tudo, Z ainda estava vivo, mas também a morrer.

 

 

 

II

A ambulância acelerava pelas ruas da cidade a alta velocidade. O motor rugia e as chapas tremiam. Ultrapassava carros, pessoas, sinais vermelhos, sinais proibidos. Não havia lei que impedisse o salvamento daqueles que morriam, mesmo que eles não soubessem, e mesmo que tal acontecesse devido a um crasso erro cósmico.

Z estava inconsciente, mas mesmo nesse profundo poço de impotência e imobilidade revoltava-se contra a situação em que estava inserido. Nada podia fazer com o seu corpo, mas podia planear e preparar-se para enfrentar os seus captores. Mas não era fácil tomar controlo dos seus pensamentos. A sua mente era um mar de remoinhos, impossível de navegar. As ideias que tinha afundavam em si mesmas, sendo substituídas por visões abstratas e irracionais. Uma das alucinações, ou sonhos, ou fantasias, era distinta das outras. Parecia o vislumbrar de um mundo alienígena através de uma janela panorâmica, colocada convenientemente no seio do seu mundo. Os alienígenas, ou deuses, ou demónios, pareciam mais humanos que os paramédicos que o tinham capturado. Tinham faces e corpos idênticos ao de Z, escondidos em trajes com estéticas diferentes. As cidades eram semelhantes, se bem que com estéticas diferentes. Tudo no seu mundo parecia um reflexo num espelho do mundo de Z, apenas o sentido de estética era diferente.

Caminhava pelas estradas daquela realidade paralela, visitava os seus edifícios, vislumbrava a sua cultura, tentava falar com as pessoas que por ele passavam, mas via na cara delas apenas expressões de terror, de nojo, de confusão. Quanto mais caminhava menos pessoas via, como se dele fugissem, como se vissem um fantasma. Talvez fosse nisso que ele se tinha tornado, e nem se tinha apercebido. Explicava o incidente da noite de segunda-feira, mas não entendia essa conclusão como um facto, apenas opinião.

Tinha chegado a um beco sem saída, e após quilómetros a caminhar sozinho por ruas de cidades em simultâneo desconhecidas e familiares, um homem solitário dirigia-se em direção a ele. Um homem gorducho, com ar pensativo. Caminhavam os dois, em sentidos opostos. O homem parecia um empresário, engordado após anos de vícios e luxos comprados. Como tudo o resto naquele mundo, era um empresário parecido àqueles do mundo de Z, apenas com uma estética diferente.

Z e o homem param. Fixam os olhares. E o homem falou.

“Peço imensa desculpa.”

E após uma curta pausa.

“Quando morreres, poderemos falar.”

 

 

 

 

 

 

III

Era quinta-feira e Z estava morto, mas ele já sabia. Sabia que estava morto pois estava no seu próprio funeral. E o seu corpo estava imóvel, nem os olhos mexia. Na verdade, tinha os olhos fechados, portanto o seu movimento era desperdiçado. De qualquer forma, o caixão já estava fechado. Quanto às mãos, já não podia dizer o mesmo. Sentia uma comichão na virilha, e necessitava urgentemente de a coçar, mas não se conseguia mover.

Estava completamente paralisado. Limitava-se a ouvir os choros das pessoas. Ouvia a sua lamuriosa ex-mulher, vertendo lágrimas como uma torneira aberta. Enquanto era vivo tinha sido uma cabra, durante o casamento e após o divórcio. E no seu funeral chorava, como se fosse ela própria a morrer. As suas duas filhas já tinham terminado a choradeira, com os olhos secos após testemunharem a partida de um pai que as tinha abandonado. Z não fora um bom pai, tal era um facto. Não fora um bom marido. É verdade que a sua ex-mulher era uma cabra, mas Z não tinha sido melhor. Mas, no fim, todos choravam por ele. Também não tinha sido assim tão mau.

O funeral tinha chegado ao fim, e o seu caixão estava a ser colocado dentro de um buraco cavado na terra. Z ouvia a terra a cair na tampa do caixão. Já se encontrava na escuridão, o enterro era apenas uma formalidade. Um pensamento surgiu-lhe na mente como um relâmpago rompante. Ele estava morto, era um facto reconhecível, portanto o que se seguiria? Não conseguia mover o seu corpo, mas conseguia respirar. Iria também esse ato ser impossibilitado num futuro próximo? O que aconteceria então? Morto já estava, que diferença podia fazer respirar? Ou iria ele sufocar durante toda a eternidade? Essa realização perturbava Z, tanto que se viu forçado a ignorar essa ideia a todo o custo. A sua consciência vagueou para o seu sonho, ou alucinação, ou fantasia, que tinha tido durante a viagem de ambulância. Lembrou-se das palavras do empresário gorducho, que quando morresse poderiam conversar. Ele estava morto; onde estava a conversa? Podia ser apenas uma alucinação, ou sonho, ou fantasia, mas depois de toda a bizarria que tinha acontecido na sua vida, a ideia de a conversa e o outro mundo serem reais merecia, pelo menos, ser entretida.

A mente de Z despertou, ao vislumbrar um feixe de luz na escuridão das suas pálpebras. Mas a luz não vinha dos seus olhos. A luz vinha de dentro. De algures do seu interior, mas ao mesmo tempo de algures fora de si. A sua visão afunilava, focando-se na ínfima luz que formava um pequeno ponto. As suas preocupações e confusões evaporaram, deixando de lhe toldar a visão.

Z via apenas um túnel, e uma luz no fim.

 

 

 

 

 

 

IV

Z estava nas nuvens. O chão em que o seu corpo se erguia era composto por nuvens. Acima de si via apenas o céu azul, e à sua frente um gradeamento dourado com um portão no centro que continuava até ao infinito do horizonte, misturando-se lá com as nuvens. A guardar o portão, um velho de barbas brancas, vestido branco e asas brancas olhava seriamente para ele, encostado a um balcão dourado, com um livro em cima.

“Bem-vindo aos portões do céu. O meu nome é São Pedro.” – disse o velho.

Assim que o velho pudesse continuar as suas palavras, o empresário gorducho materializa-se ao lado do autoproclamado São Pedro.

“Terminar programa para o hospedeiro 107602707794.” – após o empresário gorducho vociferar estas palavras, as nuvens, o portão, e o velho desapareceram como nevoeiro na manhã. Restava apenas o céu azul e um plano infinito de vidro, onde Z e o empresário assentavam os seus pés.

“Antes de mais, peço desculpa por tudo o que lhe aconteceu.” – disse o empresário gorducho.

“Pode passar para a parte das explicações.”

“Certo.” – o empresário entrelaçou as mãos atrás das costas. – “Por onde começar?”

“Normalmente, é pelo inicio.” – respondeu Z, com decisiva seriedade. “Seria o momento em que os paramédicos me arrombaram a porta.”

“Não, temo que isso não seja o inicio.”

“Umas horas, então. Talvez uns dias?”

“Dezenas de milhares de anos, mais coisa menos coisa.”

Z não respondeu, ficando perdido nas palavras do empresário gorducho.

“Para ser exato, o verdadeiro inicio foi o momento em que o primeiro homem imaginou que existia vida após a morte.” – disse o gorducho. – “Foi aí que entrámos em negócio.”

“Felizmente, o senhor Z pertence a um universo com regras semelhantes às nossas. Penso que isso irá facilitar o processo. Nem imagina as conversas que já tive com homens e mulheres de alguns universos. A ideia de recursos e, pior, a ideia de gerar recursos às custas dos outros é apenas o mais básico das muitas diferenças fundamentais entre as humanidades dos vários universos.”

“Devo presumir que é verdade que existem… ahm… infinitos universos paralelos?” – disse Z, começando a sentir tremeliques no seu corpo.

“Sim, é um facto.”

Z permaneceu em silencio.

“Bem, para ser sucinto, algo que acho vital neste momento, o meu universo tomou controlo do seu há dezenas de milhares de anos, e temos desde então utilizado as pessoas que morrem como escravos.”

Z permaneceu em silencio.

“Não conquistámos o seu universo, quero que isso fique claro. Apenas ganhámos controlo sobre a vossa realidade. Sei que parece estranho, mas veja desta forma: as particulazinhas constituem a matéria, e a matéria constitui o universo. Logo, a realidade. Nós, simplesmente, criámos um programa informático que altera a vossa perceção da realidade, e que nos permite utilizar as particulazinhas que perfazem a vossa consciência para nosso proveito assim que morram. Claro que quando morrem, pensam que foram para o céu, ou Valhalla, ou que der mais jeito perante uma dada cultura. Na realidade, ficam eternamente enquanto nossos escravos.”

Z permaneceu em silencio.

“Agora, a sua… situação. Como no seu universo, e é esta uma das razões que ajuda que o seu universo seja parecido ao nosso, os programas informáticos por vezes têm… bugs. E, digo-lhe já, a sua situação foi nada mais, nada menos que um gigantesco bug. Acontece desde o arranque do programa e, sinceramente, acho que nunca o vamos resolver. O facto de não podermos desligar o programa não ajuda.”

Z permaneceu em silencio.

“Mas, bem, então o que é que acontece nestes casos? E é por isto que lhe vim falar e explicar tudo, porque, asseguro-lhe, não faço isto com o resto dos mortos. É o meu trabalho, afinal de contas. A sua realidade sofreu um erro, um bug, e o programa identificou-o enquanto morto, embora estivesse vivo. Isto é tudo muito giro, mas o problema é que ainda permanece nesse estado, e como tal não pode ser recolhido para a colheita de escravos. Não está morto, e tal estado é um… pré-requisito. Portanto, o que fazer consigo?”

Z permaneceu em silencio, e engoliu a seco.

“Já ouviu falar de fantasmas? Deve-lhe vir à cabeça uma imagem de uma pessoa debaixo de um lençol branco. Nada disso! Fantasmas são aqueles entre a vida e a morte. Aqueles que o programa marcou como mortos, mas estão funcionalmente vivos. O que acontece, e é por isto que estamos a ter esta conversa, é que irá passar a eternidade a caminhar entre os marcados como vivos, embora esteja marcado como morto. Poderá vê-los, mas eles não o poderão ver. Nem tocar, nem nada. Sendo honesto, devia ficar agradecido. O seu universo é dos poucos em que conseguimos forçar o programa a garantir esse estado. Noutros, ficaria eternamente no caixão. Pelo menos assim, ainda extraímos algum recurso de si, e ao mesmo tempo a sua eternidade será um pouco menos má.”

Z pretendia permanecer em silencio, mas algo borbulhava nele, e as palavras que expressavam essa sensação tinham que sair.

“Porquê?”

“Ah, outra razão que será útil a semelhança entre os nossos universos. Vocês são recursos para nós. Recursos energéticos. A vossa eterna escravidão possibilita a existência da nossa humanidade, e a exploração desse recurso por parte da minha empresa é, devo admitir, extremamente lucrativa. Todo este programa foi desenhado pela minha empresa e, para grande satisfação minha, continuamos a não desiludir os nossos acionistas. Nada contra si e os seus, como é óbvio. De onde vem, penso que compreenderá. É apenas… a ordem das coisas.”

Z permaneceu em silêncio.

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publicado às 19:35



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