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A Poesia

por O Gil, em 14.07.17

A poesia

Escorre-me pelos dedos

Como água de uma torneira defeituosa.

Uma torneira que abre a corrente

Apenas quando não estou em casa,

Quando não posso controlar o seu fluxo

Ou aproveitar para beber a água.

 

Por vezes,

Quando me encontro em casa,

Oiço pingas salpicando

O mármore do lavatório.

Corro para a torneira

E estendo as mãos debaixo dela,

À espera da queda de alguma pinga,

Fria ou quente,

Doce ou salgada,

Irrelevante,

Desde que a possa levar à boca para saborear.

 

Quando nada acontece,

Quando a água não verte

Ou as pingas eludem as minhas mãos,

Sinto apenas a secura da minha pele,

Uma sede insaciável no palato da mente,

Uma necessidade gutural de satisfazer uma ideia,

De concretizar um propósito,

De atingir um patamar,

De criar a arte,

A arte que me atormenta.

 

Quando acontece,

Quando a água inunda o meu ser,

A sensação é apenas descritível

Pelas palavras que escrevo.

Nada mais é necessário

E nada mais existe para descrever

O saborear da poesia.

Porque nada mais é necessário

E nada mais existe para descrever

A arte da vida,

Se não a própria arte,

E a própria vida.

 

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publicado às 16:03

Há uma trivialidade que me atormenta. A de ser uma pessoa. Pode parecer infinitamente complexo ser uma pessoa, deter em nós uma parafernália biológica inimaginável resultante de eras de processos físicos incompreensíveis. Pode parecer muito elaborada a forma como pensamos, como imaginamos, até como amamos. Mas no fim, é tudo trivial. Não porque o é intrinsecamente, nada é alguma coisa intrinsecamente. Eu e todas as pessoas somos triviais porque assim o escolhemos.

 

Somos triviais quando nos deitamos na pradaria e contemplamos o universo e apenas vemos nas estrelas um reflexo das nossas ilusões pessoais e vontades egoístas. Somos triviais quando ouvimos uma peça de música e não somos capazes de nos deixar envolver pelo abraço eterno do seu significado, ficando satisfeitos com o ténue aroma superficial. Somos triviais quando amamos pela reciprocidade e não da forma natural que é suportar a força bruta da inevitabilidade sentimental. Somos triviais pois escolhemos ser.

 

É difícil dizer se é possível ser outra coisa. Parte de mim tem uma ambição nata em ser algo mais que o denominador mais baixo da sociedade. Mas o resto de mim está estabelecido com raízes profundas na rotina de ser trivial. Embora compreenda a dimensão do que me escapa e da superficialidade do que absorvo, e embora tente transcender o limite da minha ingenuidade, nada além do mais insignificante me é possível apreender.

 

Julgo estar resignado a uma indomável natureza psicológica chamada normalidade, uma abstração apenas real para os mais banais, mas que insiste em se espalhar como uma virulenta infeção até aqueles que ainda são livres do seu sufoco. Espero sinceramente que os valerosos anormais lhe escapem, pois, o pouco que resta de esperança para os ideais do intelecto reside neles e no seu intuito para pensar.

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publicado às 03:36


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