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13

por O Gil, em 13.04.17

Há na arte uma característica que escapa a qualquer outro aspeto da expressão humana, até mesmo à comunicação direta entre pessoas. Na arte há um meio, uma ponte, que liga as perceções da realidade, impossíveis de compreender fora de cada pessoa, que pinta nas telas da emoção a visão daquilo que os outros sentem, o que realmente pensam.

 

13 Reasons Why, a recente série da Netflix, é arte. Mas não é uma ponte, pois assim a travessia seria relativamente simples. Não, é um purgatório pelo qual se tem de ultrapassar para atingir a revelação final. 

 

Quando comecei ver esta série, um dia antes de escrever este texto, não tinha na minha mente uma imagem do que esperar nem expectativas para o que se avizinhava. De facto, só compreendi realmente as camadas de subtexto que constituem esta obra assim que a terminei. No fim, tudo fez sentido. Mais que fazer sentido, um meio foi criado para que um sentimento pudesse ser transportado na sua totalidade entre seres pensantes.

 

Este pensamento é o da dor da vida. E pensamentos são teias abstratas que se têm em abundância, mas o que os distingue do ato de mover um braço ou piscar os olhos são os sentimentos que os provocam, ou os sentimentos que provocam. A dor da vida é a melhor descrição para o peso que se arrasta no advento das tragédias, não a dor da morte pois essa nunca é sentida por aqueles que da morte sofrem. Em Thirteen, a dor da vida é o brotar de um novo dia após o suicídio de uma doce rapariga. A dor espalha-se como um vírus e progressivamente contagia todas as personagens, mas principalmente, contagia-nos a nós, os espectadores. 

 

Esta dor, no entanto, não surge por um acaso cósmico. A dor surge porque é muito real. É uma dor que todos sabemos que existe, e embora não lhe demos atenção na maioria dos momentos, é uma dor que nos persegue até que nos alcança no final da nossa narrativa. Nesse fim, pode dizer-se que é aliviada, mas não é necessariamente verdade, já que o que desaparece é o veículo para essa dor, nada mais. 

 

Mas essa dor é mais que uma premonição catastrófica, essa dor é uma marca de nascença que arde quando tocada, e pela lente da personagem que tira a sua própria vida é incendiada em nós uma purga de consciência. Um sufoco sofrido em testemunhar, tal como as personagens que espelham uma vida tão real, uma espiral descendente e imparável que resulta num culminar indescritível, um momento cinemático tão genialmente representado enquanto arte que é apenas possível transmitir o seu significado observando essa mesma arte. 

 

E é isso que sugiro. Testemunhem este segmento de arte a imitar a vida, testemunhem outros tantos com inúmeros outros significados e variadas imitações, por vezes criações. Mas acima de tudo, testemunhem a vida e aqueles que vos rodeiam, pois não se sabe quando a sua narrativa pode terminar. 

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publicado às 05:46


2 comentários

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De Francisco Quintas a 16.06.2017 às 03:27

Sugiro que faças críticas/reviews. Este texto é muito bom, aplicá-lo mais vezes quando se falar do cinema era um bom caminho! Excelente texto :)
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De O Gil a 16.06.2017 às 10:45

Obrigado pelo feedback! É exatamente isso que pretendo fazer, estou apenas a decidir a abordagem certa!

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